Trilhando os Caminhos da Santidade
Informações gerais
- Título:
- Trilhando os Caminhos da Santidade
- Autor:
- thefallen (antigo)
- Tipo:
- Fan-fic ambientada no MUD (OOC)
- Participantes:
- Local:
- Mata dos Trolls, Valfenda
- Data IC:
- 2 de Laer de 4766
- Data OOC:
- 04/10/2005
Resumo
Uma aventura aonde dois poderosos magos elfos encontram os caminhos da santidade e da devoção e se interessam pela vida sacerdotal, com suas obrigações e deveres sagrados.
***
Nota da Administração: Uma Fan-Fic ambientada no mud é como um Log OOC, ou seja, que _não ocorreu_ realmente dentro do jogo, portanto não é passível de atribuição de gp.
- O Chamado de Valfenda
Era uma tarde ensolarada e fresca, e Eru nos brindava com um lindo céu azul e
sem nuvens. Em meio às frondosas árvores dos bosques dos jardins de Elrond,
encontramos dois elfos se divertindo com um piquenique em uma agradável
clareira. Estavam felizes, saboreando suas guloseimas, quando um corvo voou
sobre a clareira, e, observando-os, fez largos círculos no céu e pousou
próximo a eles. A ave soltou algo e olhou fixamente para os elfos; eles logo
entenderam que se tratava de um mensageiro da casa de Elrond, e se apressaram
a ler a nota.
A nota dizia em tengwar bem escritos: "Por favor, solicito a presença de ambos
em minha sala de audiências. Assunto urgente. Conto com vocês. Elrond
Meio-elfo."
Se tratando de uma pessoa tão importante, os dois elfos logo reuniram seus
poucos pertences e foram à residência do Senhor Élfico. Uma agradável mansão,
bem cercada por árvores e arbustos, com lindas flores e folhagens que
encantariam os olhos de qualquer transeunte.
Ao chegarem à entrada da mansão, foram recebidos pelos guardas da casa, que
estavam mais afeitos aos seus companheiros de armas do que a aqueles agentes
de campo, mais para aventureiros do que para combatentes das fileiras do
Senhor Élfico. Não se incomodavam em demonstrar seu desgosto pelos dois elfos
que se dedicavam mais a entender as forças mágicas do mundo e da natureza do
que à perícia das armas.
- Hunf, lá vem esses frangotes embromadores de novo. O que será que nosso
chefe tanto vê nesses - BLERGH - magos? Duvido que sejam capazes de fazer
algo numa batalha de verdade. - dizia um dos guardas em voz baixa como se
estivesse confidenciando a seu companheiro; mas em voz alta o suficiente
para ser ouvido pelo casal de elfos a sua frente.
- É, quero ver esses shows de luzes derrubarem um troll - murmurava o outro
guarda em tom igualmente alto o suficiente para que os dois magos, trajados
em longas túnicas vermelhas, os ouvissem. Aqueles guerreiros REALMENTE não
gostavam de magos e feiticeiros!
Os dois elfos recém chegados eram figuras peculiares; o elfo tinha cabelos
claros, encaracolados, e uma tez branca que realçava os olhos verde-escuros.
Um círculo de prata lhe rodeava a cabeça, prendendo os cachos revoltos. A elfa
tinha lindos cabelos ruivos, vermelhos como pétalas de rosas, e estes caíam
como graciosa cascata cintilante sobre os ombros e costas. Uma linda tiara de
prata belamente trabalhada lhe continha os cabelos lisos e delicados, que
serviam de moldura a um belo rosto redondo, alvo como a pura neve das
montanhas intocadas, delicado e macio como a pele de um bebê, coroado por dois
olhos verde-claros, que brilhavam como duas esmeraldas fluorescentes. Ambos
exibiam largos sorrisos felizes, como os de uma criança que recebeu um
presente!
Ambos trajavam longas capas vermelho-escuro, que lhe recobriam completamente
as armaduras. Estas eram compostas de bem trabalhados peitorais élficos,
braceletes prateados de feitura númenoriana, e um conjunto de peças de
armadura (luvas, cinto, perneiras e guardas de braço) de aspecto estranho.
À primeira vista, diria-se serem feitos de aço azulado; observando mais de
perto, pareceriam feitas de placas gelo; com o reflexo do sol, cintilavam como
água corrente; mas olhando minuciosamente, logo entenderiamos tal aspecto
único: eram feitas de escamas de um dragão de gelo por artes de um hábil
artesão, que soube moldar as placas geladas para serem usadas como proteção
poderosa.
Por baixo de tão incrível armadura, leves vestes de linho vermelho esvoaçantes
recobriam os corpos de ambos, adicionando conforto e suavidade ao aspecto
belicoso daquelas notáveis armaduras.
No pescoço do elfo, preso à uma delicada corrente de mithril, pendia uma
estranha jóia avermelhada, emitindo uma luz pálida mas constante. A jóia era
toda enfeitada de símbolos Valinorianos trabalhados a ouro. No centro da bela
gema, lia-se nitidamente escrito em Tengwar tremulantes: "Feena"
Fingindo que não havia ouvido nada daquela provocação declarada dos guardas, o
elfo se dirigiu a eles em voz alta e imponente, como que respondendo ao franco
desafio:
- Somos Hellirion e Feena Gaerfinnel, alcunhados de Magos Vermelhos pela Casa
de Elrond, e estamos aqui atendendo a um chamado de nosso nobre Senhor.
Solicitamos uma audiência imediata, pois seu chamado era urgente.
O primeiro saiu resmungando, para levar a informação adiante até o valete do
Senhor da Casa. Logo surgiu um elfo, trajado em uma leve túnica esverdeada,
com uma auréola de ouro a lhe prender os cabelos prateados, contrastando
vivamente com a pele branca. Este disse cortesmente:
- Muitos bons dias, meus bons elfos Feena e Hellirion! Meu Senhor os aguarda!
Sejam muito bem vindos de volta à Valfenda! Por favor acompanhem-me até os
aposentos de meu Senhor! - e guiou-os até Elrond.
Este vestia roupagens de linho e um maravilhoso manto real. Um anel brilhava
intensamente em seu dedo, enquanto uma diadema de mithril adornava sua cabeça.
Ele olhou-os com uma expressão de contentamento e entao disse-lhes:
"Almarë, meus bons amigos. Espero que tenham feito boa viagem até nosso
refúgio! Sei que estavam se distraindo em seu descanso, mas um assunto urgente
e muito sério me incomoda. Tenho um favor a pedir-lhes. Sei que não estão
engajados em serviços de busca ou mesmo de combate, mas peço-vos que
investiguem algo para mim.
Enviei um de meus patrulheiros para inspecionar os bosques ao leste de meus
domínios, já a alguns meses, e este não mais regressou. Mais três patrulhas
foram enviadas para examinar a área, mas apenas um deles retornou. Chegou até
nossa vila em estado deplorável, e foi logo levado aos Salões de Cura.
No entanto, seus ferimentos não se fechavam, e ele morreu algumas poucas horas
após ter chegado até aqui. Os curandeiros dizem que se tratava de poderosa
energia maligna, impossível de se curar com os métodos convencionais. Tivesse
eu sabido disso, teria me ocupado pessoalmente do caso, mas... bem, não é hora
de pensar nisso.
Um destacamento de guerreiros foi enviado para lá, mas estes também sumiram
sem nos enviar notícias. Nem mesmo os corvos que levavam consigo voltaram para
nos dar informações.
Como meus vassalos e amigos, especialistas nos caminhos das energias místicas
e forças cósmicas, peço que investiguem esse lugar, e me digam se devemos
selá-lo para sempre ou se há chance de derrotarmos o mal que parece emanar
dali. Não se exponham demais; o perigo é real e presente. Não desejo que
arrisquem suas vidas em tal empreitada. Já muitos elfos sumiram ali."
Hellirion e Feena apenas trocaram um olhar em que um mundo de palavras não
poderia conter todo o significado expresso naquele ínfimo instante, e disseram
ao Senhor Élfico:
- Nosso Senhor Elrond, aqui nos apresentamos para esta missão. Oferecemos
nossos serviços e nossas vidas para localizar, identificar e punir os
responsáveis pela morte de tantos elfos.
- Obrigado, meus filhos, sabia que vocês ajudariam de bom grado! Que Eru,
Manwë e Elbereth os abençõem em sua missão. Celeb! Apronte provisões e
equipamentos para eles, por gentileza.
- Namarië, Senhor Elrond! - despediram-se o Casal de Magos Vermelhos, e
seguiram o valete de Elrond até as salas de provisões, aonde foram
propriamente aparelhados para a empreitada.
Ao passarem pelos guardas, Celeb disse alegremente: Amigos de meu amo! Que
Elbereth ilumine seus caminhos com as estrelas! Voltem logo em sua importante
missão! Nosso Senhor confia em vocês!
- Pode deixar, bom amigo, faremos tudo que pudermos por Elrond! Namarië!
Ambos os guardas se olhavam com olhares espantados; aqueles dois que eles
haviam desprezado tratavam o mais alto servo da casa como seu amigo, e mesmo o
Senhor da casa pedia-lhes favores. Seria difícil achar um bufão que
conseguisse fazer uma cara mais abobalhada do que a deles!
Com um último olhar de despedida, e um longo beijo apaixonado, os dois magos
serguiram caminho de mãos dadas, cantarolando, felizes por estarem juntos em
mais uma missão. Um realmente amava a companhia do outro, e iriam alegremente
até o meio de um dos acampamento das tropas de Sauron; bastava estarem de mãos
dadas!
- A Jornada Pelas Florestas
Seguindo o mapa que havia lhes sido passado, tomaram as estradas e caminhos
das florestas, e logo passaram pelo pequeno fortim em que Glorfindel, o Alto
Elfo, mantinha vigilância, junto com seu corcél Asfaloth.
- Ayia, companheiros! Aonde estais indo, e a que empresa vos dedicais?
- Estamos em missão secreta, nobre cavaleiro. Permita-nos atravessar vosso
posto de guarda sem mais perguntas, se for de vossa vontade. - disseram-lhe os
Magos Vermelhos.
- Hmmm, estais em missão para Elrond. Sigam vosso caminho, e que Elbereth vos
abençoe! Namarië!
Se despedindo do vigia élfico, ambos prosseguiram em sua caminhada pelos
bosques, à procura do local indicado. Felizes caminhavam, sem apreensões ou
cuidados pelo que os aguardava, cantando e rindo. Poderia-se dizer que nada
mais no mundo os importava, apenas a presença e carinho um do outro. Nem mesmo
a idéia de que logo poderiam estar enfrentando poderes sombrios e seres
decaídos os fazia sentir medo, pois estavam juntos, e juntos enfrentariam
qualquer coisa.
A paisagem ia se alterando quanto mais se dirigiam ao local indicado. As
árvores já não eram tão vistosas, embora fossem frondosas. As folhas, mesmo
sendo grandes e sadias, apresentavam uma aura indescritivelmente obscura, uma
coloração estranha, uma tonalidade de verde muito diversa daquelas árvores
bem cuidadas das terras élficas.
Chegaram até um pequeno regato, um curso d'água que corria entre os arbustos.
Mesmo o murmúrio da água corrente não era bonito; antes, um barulho baixo,
como que com um tom cansado, se fazia ouvir. Ambos os Magos Vermelhos estavam
sedentos pela longa caminhada, mas sentiam apreensão de beber aquele líquido
esquisito.
- Sinto cheiro das sombras nesta água, meu querido. Não devemos beber! - disse
a elfa, com um certo ar de asco ao se aproximar do regato.
- Concordo com você, silmaril. Não é água para criaturas sadias beberem. Vamos
ter que recorrer às forças naturais e tentar conjurar água pura para nós.
Os magos deram-se ambas as mãos em um aperto caloroso, e, sorrindo, emanaram
energias cósmicas entre si. A uma só voz, disseram em tom solene: Faça-se
Água! Logo um pequeno redemoinho esverdeado surgiu no espaço entre os dois,
bem próximo ao chão, e água límpida e cristalina, pura como a primeira neve a
derreter dos picos, fluiu daquele vórtex energético, minando de lugar nenhum.
Puderam então saciar a sede, e fizeram seu acampamento ali, pois a noite já
avançava.
Logo bem cedo pela manhã, iniciaram a caminhada. Agora estavam muito próximos
do objetivo, o lugar de onde os patrulheiros não voltaram mais. Era uma grande
clareira aonde três enormes trolls estavam petrificados, pegos desprevenidos
pela luz do sol que tanto odiavam.
- Deve ser aqui, querido! Já vemos restos mortais de criaturas decaídas.
Detesto trolls, amado! - e se aconchegou mais ao peito de seu esposo.
- São criaturas desprezíveis, meu silmaril, concordo com você. Talvez
encontremos alguns dessa raça maldita ainda vivos; prepare-se amada, pode ser
que precisemos lutar com essas criaturas nojentas. - disse Hellirion enquanto
abraçava sua esposa calorosamente, seguido de um reconfortante beijo em sua
testa.
Logo os dois encontraram uma passagem nas folhagens que levava até uma trilha
bem batida, ao que parecia. Ambos seguraram as mãos fortemente, preparando-se
para encontrar seres sombrios. Seria impossível achar uma criatura de bem
perdida naquele ambiente tão sinistro e maligno.
Enquanto caminhavam pelas trilhas tortuosas, alguns bixinhos da floresta
observaram os dois elfos caminhando, e se aproximaram. A Dama Vermelha, amiga
das criaturas silvestres, tinha muita empatia com elas, e podia fazer-se
entender e também entendê-los. Logo ouviu um esquilo, que guinchava com força:
"Fujam! Fujam! Os Grandes Malvados! Fujam!". Mais do que isso não era possível
para Feena compreender, apenas "os grandes malvados". Outros animaizinhos
também se aproximaram deles, e a advertência era sempre a mesma: os grandes
malvados.
E em uma curva do caminho, lá estava. Com olhar malvado e uma aura
indescritivelmente maléfica, um enorme troll caminhava nas sombras. Como a
mata era muito densa e fechada, este troll podia se arriscar a caminhar
durante as horas mais frescas do dia, protegido pela escuridão sob as árvores,
que lançavam uma profunda sobra sobre os seres que caminhavam sob suas folhas.
Assim que os viu, aquela criatura horrenda começou a girar uma pesada corrente
espinhosa e partiu para o ataque! Pegos desprevenidos, puderam apenas tentar
se esquivar e contar com as proteções mágicas que tinham. Uma das giradas da
corrente arranhou Hellirion levemente no braço esquerdo; um longo vinco escuro
surgiu no local, não causado pelo golpe em si, mas pela enorme quantidade de
energia maligna que impregnava aquela arma. Haviam descoberto o motivo das
feridas não cicatrizarem normalmente.
Passado o primeiro susto, os Magos Vermelhos trataram logo de compor sua
estratégia. Abater trolls nunca fora uma tarefa fácil. Combatê-los, agora que
dispunham de armas tão malignas, era positivamente aterrador. Enquanto
Hellirion mantinha o enorme troll ocupado, esquivando-se de seus ataques,
Feena conjurava poderosas magias contra ele. Segurando a garganta com ambas as
mãos, ela como que vomitava certeiras rajadas de ácido mágico contra o troll.
Estas, embora atingissem a criatura, não faziam mais efeito do que os golpes
da maça de Hellirion contra aquela pele de pedra. Tentaram conjurar uma
infinidade de encantos menores, mas não era fácil atingir um troll.
Num momento em que o troll acertou uma árvore, e precisava recomeçar a girar
sua corrente, Hellirion aproveitou para conjurar um encanto de fogo contra
aquela coisa. Esfregando as palmas das mãos, ele disse "Labaredas de Anor" e
assoprou por entre os dedos curvados. Uma enorme labareda mágica atingiu o
troll, causando-lhe ferimentos, mas não o suficiente para derrubá-lo.
Neste momento, uma súbita inspiração ocorreu a Feena, e ela gritou: "A
Clareira, Amor! A Clareira!" - e apontou para a clareira logo atrás de
Hellirion, aonde o sol brilhava desimpedido.
Hellirion logo entendeu o que ela queria dizer, e foi se esquivando do troll e
conduzindo-o para a clareira. Este, cego pelo ódio e pelos ferimentos, não
notou a manobra, e entrou na clareira, recebendo os raios do sol. Logo estava
praticamente petrificado, mais uma disforme estátua naquela floresta maldita.
Aproveitando o momento de folga, ambos conjuraram seus encantos flamejantes
mais fortes, e aquela figura imóvel foi espatifada em milhares de pedaços.
Gostariam de ver o que aqueles tolos guardas diriam a respeito desse "show de
luzes"!
- A Procura dos Eldar cativos
Já alertas quanto a existência de trolls, eles vigiavam cada passagem antes de
entrarem nela. Desconfiavam de cada clareira e curva do caminho. Mas mesmo com
tais cuidados, estavam ainda mais atentos a sinais da presença de elfos
prisioneiros nas proximidades. Feena tentava perguntar aos bixinhos se haviam
visto outros elfos, mas todos eles ficavam ainda mais amedrontados, e gritavam
"O Grande Malvado! O Grande Malvado!". Como poderiam estas criaturinhas
confundir um elfo com um troll, "os grandes malvados"?
- Nossa busca pelos prisioneiros elfos não está progredindo, minha amada.
Vamos usar nossos poderes para tentar achá-los!
- Exatamente, meu amado. Por que não conjurar o Olho de Agamoth? Pode ser que
ele encontre algum objeto daqueles que procuramos.
- Farei isso, meu silmaril.
O elfo então juntou as palmas das mãos em frente ao rosto, e se concentrou
profundamente. Logo energias fluíam por suas mãos e se concentravam numa
pequena esfera entre seus dedos. Em poucos instantes, algo semelhante a um
olho se formou, com pupilas retraídas como as de um gato. Este flutuava em
pleno ar, brilhando levemente sob uma aura azul
O elfo então ordenou ao olho com voz firme: Localizar Túnica! - e o olho
de Agamoth partiu velozmente à busca do objeto indicado, como um raio partido
dos céus. Longos minutos ficaram à espera do retorno, mas a busca fora
infrutífera. Nenhum objeto como aquele podia ser localizado num raio de
algumas léguas.
- Sinto muito, meu amor, mas o encantamento não foi capaz de localizar nenhum
objeto.
- Não há de ser nada, adorado. Vamos tentar o Espelho de Galadriel. Quem sabe
seus poderes clarividentes nos revelem o paradeiro dos elfos.
Feena então procurou uma árvore derrubada, aonde seu tronco havia formado um
oco, uma depressão. Era necessário água pura das chuvas para que o feitiço
tivesse poderes de enxergar além do alcance. Logo acharam um toco com os
requisitos necessários, e Feena se pos a recitar as palavras mágicas que
Galadriel havia lhe ensinado. Logo, a água contida no toco se tornou vítrea, e
estranhas imagens se formaram.
- Invoco a Clarividência! Desejo enxergar outros elfos - disse Feena ao
espelho mágico, e logo imagens de outro ponto na floresta apareceram. Feena
podia sentir que o espelho lhe mostrava a localização de um elfo, e as
energias mágicas lhe diziam que era o único ainda vivo de todos os
patrulheiros enviados. Horríveis cenas da execução lenta e dolorosa, cheias
de crueldade e da malícia de Morgoth, lhe invadiam a mente, causando náuseas
e tonturas na pobre elfa. Ela podia sentir boa parte do tormento físico e
mental que aqueles pobres diabos haviam passado antes de receberem alívio na
morte.
Quando o espelho estava se tornando mais nítido, mais próximo do elfo
sobrevivente, uma penumbra encobriu a visão, logo substituída por uma pesada
sombra, tenebrosa e desafiadora em seu negrume. Em meio à escuridão da sombra,
um olho vermelho, com pupilas finas como as de uma cobra, apareceu, encarando
ameaçadoramente. Neste ponto, Feena conseguiu romper a magia, e caiu ajoelhada
em prantos ao lado do tronco que lhe serviu para conjurar o espelho, coberta
em suor frio, tremendo muito.
Hellirion confortou sua esposa, tentando fazê-la esquecer a visão da sombra e
do olho maldito, mas o poder maligno era grande e ainda a atarantava. Com
muita ternura, o elfo abraçou sua elfa e lhe aqueceu, passando parte de sua
energia vital, até que esta sentiu a sombra ser expulsa do local, e recobrou
sua coragem e ânimo.
- Por ali, amado. Ele está por ali, entre as árvores. - disse a elfa, já mais
calma.
Prosseguiram a busca, até que ouviram uma suave voz élfica cantando. Apurando
os ouvidos, perceberam que alguém cantava uma Ode à Elbereth. Que estranho!
Como podia alguém por ali entoar uma Ode à Elbereth? Haveria outros viajantes
elfos perdidos naqueles rincões?
Seguiram o som da voz, até que, ao lado de uma trilha batida naquele bosque
maldito, encontraram o dono da voz que haviam escutado. Percebiam pelo porte e
vulto que se tratava de um elfo, mas a sua aparência em nada lembrava os
primeiros filhos de Eru em Arda. Seu cabelo, que parecia antes ter sido
abundante e bem cuidado, com cachos loiros, agora estava desgrenhado, manchado
de preto; pareciam-se mais com as penugens de um filhote de águia do que com
cabelos élficos ou humanos. Seu rosto estava marcado por profundas
perfuraçoes, com as bordas enegrecidas. A pele, antes tão clara, agora estava
escura, como que coberta por uma eterna sombra. Roupas corroídas cobriam
seu corpo magro e disforme. Uma grande espada, de feitura élfica sem dúvida,
lhe pendia da bainha, coberta de manchas negras.
A despeito de tão revoltante exterior, ele cantava belamente sobre Elbereth
Gilthoniel, a senhora da Luz das Estrelas e dos Elfos. Podia-se notar o
saudosismo e nostalgia presentes em sua voz, a emoção que lhe ia na alma.
Momentaneamente arrebatados por tal achado, não notaram o cavalo que pastava
na relva próxima. Por Eru, se é que se podia chamar aquilo de cavalo. Uma
criatura magra, com pêlos mal-tratados, mais parecendo um saco de ossos do que
um belo corcél élfico, com pêlo negro reluzente, como ele já fora. Em diversas
partes de seu corpo, faltavam pedaços de pele e carne, como se tivessem sido
corroídos ou simplesmente apodrecidos. Uma visão especialmente revoltante foi
quando ele se voltou pra encarar os recém chegados: um buraco na lateral de
seu focinho deixava à mostra seus dentes. Um relincho de advertência acordou
seu dono do devaneio poético em que se achava.
- Quem são vocês, estranhos? Sumam-se daqui, se dão valor a suas vidas! -
ele disse, em um tom mais de lamento do que de raiva ou agressão.
Momentaneamente paralisados pelas visões horríveis, o casal de Magos Vermelhos
apenas olhava para aquele membro de sua raça.
- O Elfo Sombrio
Ainda assombrados pela figura deste elfo corrompido pela sombra e malícia de
Morgoth, apenas puderam dizer:
- V-viemos pa-para resgatar v-você! - disse o Mago, com voz trêmula pela
surpresa ainda.
- Ah, meu antigo Senhor Elrond ainda se lembra de mim! Mas seus esforços
vieram tarde demais, ah, tarde demais, ah Elbereth! - ele disse num lamento de
cortar mesmo o mais duro coração.
- Vamos embora desse lugar de volta a nossa casa! - disse a elfa, numa
tentativa de animar aquele pobre trapo que um dia fora um elfo.
- Casa? Já não tenho mais para onde voltar. Eu um dia fui Yelwa da casa de
Cariel. Hoje não passo de um morto vivo, um lixo que deveria ter morrido com
seus companheiros, um fraco que merece apenas desprezo, que desonrou a
linhagem de seus pais! - lamentava-se em voz baixa Yelwa.
- Fujam daqui, sumam-se, antes que ele me faça fazer mais coisas ruins! FUJAM!
Está escurecendo e já sinto a sombra me envolvendo! Vão! VÃO! - e gritava em
tom cada vez mais alto e desesperado.
Os Magos Vermelhos ainda tentavam convencer o companheiro a ir embora junto
com eles, mas este apenas gesticulava e gritava mais alto para que fugissem.
Logo, teve um longo espasmo, em que olhava com olhos vidrados para o céu, e
as manchas escuras em sua pele se tornaram ainda mais negras, como que sugando
a pouca luz ao seu redor. Quando o espasmo acabou, a postura de Yelwa estava
diferente; muito mais parecido com uma víbora, com membros contraídos
sinuosamente, e um ar de maldade.
- Maissssss filhossssss de Eruuuuuu sssssssssh! Maisssssss ssssangueeeee!
SSSSSSSSS - sua voz agora era como um silvo rouco e profundo, em nada
semelhante a voz élfica que cantava anteriormente.
Ao fim destas palavras, ele sacou sua espada e atacou o casal de elfos, que
não desejavam, em hipótese alguma, enfrentar em combate mortal um de sua própria
raça.
Se esquivando dos primeiros ataques, os elfos tomaram distância e rapidamente
conjuraram uma barreira sombria para os proteger, enquanto imaginavam uma
maneira de ajudar aquela pobre alma. Logo o elfo teve a idéia de aprisionar
Yelwa em uma esfera de energia, para que pudessem levá-lo até Valfenda para
receber tratamento.
Ele pos as palmas das mãos em frente ao peito como se estivesse segurando um
globo, e os dedos se dobraram como se fossem garras, enquanto que seguindo o
movimento das palmas das mãos e dos dedos, uma esfera azulada de energia se
formou ao redor de Yelwa, comprimindo-o e tentando imobilizá-lo. Não era fácil
conter aquele guerreiro, que contava não só com sua força e habilidade
adquiridas na Academia de Guerra de Valfenda, mas também com o poder da sombra
que lhe possuía e energizava.
A esfera estava quase se partindo devido ao tremendo esforço do prisioneiro,
quando Feena também se juntou ao marido na conjuração da esfera quântica. A
própria realidade se distorcia em volta de Yelwa, dado a massiva quantidade de
energia mágica empregada, mas ele não desistia, e se tornava ainda mais
frenético em seus esforços, e algumas de suas cutiladas e golpes atravessavam
a esfera e antigia aos dois. Feena e Hellirion já estavam bastante machucados,
quando uma nova figura surgiu na clareira. Uma humana, mas que emanava um ar
élfico, númenoriana, com certeza, talvez do reino de Gondor. Trajava compridas
vestes brancas, bordadas em dourado com símbolos desconhecidos. Cabelos louros
muito lisos e finos estavam contidos por uma tiara prateada com flores
entalhadas. Calçava delicadas sandálias de palha, e tinha um ar de santidade.
- Encontrando os Caminhos da Santidade
Apreendendo a situação rapidamente, a jovem segurou um objeto dourado em suas
mãos, e murmurou algumas palavras como se estivesse dirigindo uma prece.
"Pelos poderes do Único, eu suplico pelo santuário dos deuses!" - disse em tom
sereno a jovem, e uma luminosa aura branca envolveu aos três, formando uma
barreira poderosa, fenômeno ainda desconhecido para os dois magos elfos.
- Esta pobre criatura está possuída pela sombra! Precisamos livrá-la! Segurem
ele! - gritou a jovem para os magos, que ainda tentavam conter Yelwa.
- Caso não tenha notado, menina, não conseguimos mais contê-lo! - disse um
tanto quanto exasperado Hellirion.
- Deixe comigo! Amado, aguente só mais um pouco! - disse Feena, e com alguns
passes mágicos, conjurou um jato de poeira que atingiu em cheio os olhos de
Yelwa, deixando-o momentaneamente cego.
- Agora, me dêem suas mãos! - disse a jovem, e, rompendo o encanto da esfera
de energia, deram-se as mãos.
A jovem começou a entoar preces a Eru, com uma canção de poder, e o tom das
orações era de súplica e de lamento. Das poucas palavras que puderam entender
daquela reza, apenas a idéia de que solicitavam que o Único lhes mostrasse seu
favor; as palavras "expurgar o mal" também soavam constantemente em seus
ouvidos. O ritmo da prece ia aumentando em velocidade e intensidade, até se
tornar um verdadeiro turbilhão de orações em altos brados. Quando olharam para
Yelwa, este se contorcia em dor e agonia, debatendo-se, como que tentando
escapar de um abraço invisível. Em poucos minutos daquele canto poderoso, o
elfo corrompido estava totalmente imobilizado, emitindo longos silvos
aterrorizantes de dor e de fúria. Neste ponto, a jovem parou subitamente
aquele canto e disse em voz de comando:
- Em nome de Eru, o Único, e pela Luz Dourada de Laurelin, eu te ordeno, ser
inferior: SAIA! DEIXE ESTA ALMA ATORMENTADA! SAIA SAIA SAIA! DEIXE ESTA ALMA!
QUE TODO O MAL SEJA DISPERSO! - e num alto brado: DISPERSAR O MAL!
Yelwa se contorceu todo de uma maneira tão bizarra que parecia impossível a
alguém dotado de ossos e espinha dorsal se virar daquela maneira. Gritou
"MELKOR!" e caiu ao chão como um trapo sem vida.
Diante do olhar espantado dos dois magos, a jovem foi até aonde Yelwa estava
caído. Ainda mudos de assombro, os dois elfos observavam o corpo daquele
corrompido lentamente se alterar; percebiam as marcas escuras desvanescendo e
sumindo. Em pouco tempo, ele tinha novamente um aspecto élfico, embora
moribundo. Ele sussurou algo para a jovem, e esta fez sinal para que os dois
se aproximassem do pobre diabo. Este lhes disse em uma voz fraca e sumida:
- Obrigado ... libertarem da sombra. Estou... limpo... morrer feliz...
conheçer minha história... fui... primeiros... capturados... tortura cruel...
escapar... unir a eles... fraco... possuído pela sombra... me libertaram...
obrigado... - terminou Yelwa, em uma voz cada vez mais sumida, sendo difícil
distinguir as últimas palavras.
- Você vai se recuperar, amigo, não diga isso! Vamos levá-lo a Valfenda... -
tentava animá-lo a elfa.
- ... sombra... tempo demais... parto feliz. Namari... - e expirou serenamente,
com um sorriso nos lábios. Finalmente estava livre da sombra. Pobre diabo.
Ainda tristes pela alma que foi para os salões de Mandos, eles se
entreolhavam.
- Obrigado por nos ter ajudado, senhora. Nunca teríamos conseguido sem você.
Sou Hellirion Gaerfinnel e esta é minha amada esposa, Feena Gaerfinnel,
também chamados de Magos Vermelhos pela graça da Casa de Elrond.
- Muito feliz por ter ajudado vocês. Sou Sérën, Sacerdotisa da Ordem da Luz
Dourada de Laurelin.
- Nos diga, sacerdotisa, o que a trouxe até este lugar desolado? Meu marido e
eu viemos aqui em missão para Elrond.
- Venho do Templo Oculto da Árvore Dourada, que não fica muito distante daqui.
Os altos monges sentiram forte presença maligna por estes lados, e fui
ordenada pelo Grão-Sacerdote a vir aqui examinar o local. Já temos sentido
essa influência sombria por muito tempo, mas esteve particularmente mais forte
de alguns meses pra cá. Os restos mortais do troll que encontrei ali atrás no
caminho e esta pobre criatura indicam claramente isso.
Tomados pela curiosidade, os magos não puderam suprimir a pergunta:
- Que tipo de encanto foi esse que você usou? Não conhecemos esse tipo de
magia. Parece muito poderosa! - diziam os elfos, adimirados.
- Não se trata de um encanto, mas de preces ao Único e aos Valar. E sim, as
invocações desses santos são muito poderosas, mas são apenas para expurgar o
mal, feiticeiro. - disse Sérën, em tom um tanto quanto de indignação pelo
interesse dos Magos em novas formas de magia.
- Antes que nos ache aproveitadores ou que abusamos das energias mágicas,
saiba que nosso único objetivo em empregar encantos e magias é o de combater o
mal, nunca para proveito próprio. - explicou Feena.
- Hmmm! Por que digladiavam com essa pobre alma? Vingança? Ódio? - inquiriu
Sérën.
- Fomos enviados por Elrond para investigar e resgatar nossos irmãos de
sangue das forças malignas em operação aqui. Tentávamos imobilizar esse pobre
coitado e levá-lo para os Curandeiros em Valfenda... - tentou explicar
Hellirion a Sérën.
- Interessante. Feitceiros costumam estar interessados em obter vantagens dos
poderes que nos rodeiam, não em ajudar os necessitados. Se vocês pretendem
combater estas forças malignas, vão precisar expulsá-las dos inocentes
hospedeiros, não destruir os inocentes junto com os que os controlam.
- Poderia nos ensinar isso que você fez. Seria de grande ajuda... - disse
Feena após trocar um significativo olhar com seu esposo.
- Poderia lhes ensinar isso e muito mais, se estiverem dispostos a se
purificar e a seguir os caminhos da Ordem da Luz Dourada de Laurelin, como
noviços em nosso Templo. Sempre podemos usar noviços com experiência em
combate! - disse Sérën aos dois, com um meio-sorriso nos lábios!
Ambos ficaram pensativos por alguns instantes, indecisos em deixar sua vida
de magos e se dedicar às orações e preces, e outras ocupações sacerdotais.
Trocaram breves palavras entre si, e decidiram tornarem-se também clerigos.
- Sacerdotisa Sérën, estaríamos honrados em aceitar seu convite, mas
precisamos da permissão de nosso Senhor Elrond. Aonde poderíamos encontrá-la?
Ou se encomodaria de nos acompanhar até Valfenda? Tenho certeza que nosso
Senhor gostaria de agradecê-la pela ajuda!
- Acredito ser desígnio dos Valar que nos encontrássemos. Acredito também que
o Senhor Élfico não se oporá a vosso treinamento sacerdotal. Acompanho-os até
sua Casa. Que Eru abençoe os caminhos de todos!
Assim partiram os Magos Vermelhos em retorno a Valfenda, com o coração leve e
dispostos a iniciarem um novo aprendizado, dedicados de corpo e alma a seu
afã. Estariam agora Trilhando os Caminhos da Santidade pela Luz Dourada de
Laurelin!
