MUD Valinor

A Busca pelos sequestradores de Archet

A Busca pelos sequestradores de Archet

Informações gerais

Título:
A Busca pelos sequestradores de Archet
Autor:
thefallen (antigo)
Tipo:
Fan-fic ambientada no MUD (OOC)
Participantes:
Local:
Archet e subterraneos
Data IC:
12º dia do Echuir de 4766
Data OOC:
25/09/2005

Resumo

Uma aventura em que Meldon e Veasse procuram o bebê da elfa nas catacumbas do esgoto de Archet.

***
Nota da Administração: Uma Fan-Fic ambientada no mud é como um Log OOC, ou seja, que _não ocorreu_ realmente dentro do jogo, portanto não é passível de atribuição de gp.


Era um dia chuvoso e aparentemente tranquilo em Archet. Um cavaleiro
solitário e bastante molhado se dirigia lentamente até o banco de Archet,
famoso na região (talvez por ser o único em todo o distrito). Após
amarrar o cavalo num coxe, aquela ensopada figura se dirigiu até o
interior do banco, que, em contraste com o exterior chuvoso, estava
quente e seco.

- Muito bom dia, Senhor Vognus. Vim fazer um depósito em minha conta.

- Já não era sem tempo, Sr. Aistana. Sua conta andava meio... erm...
    deficiente... estes últimos meses.

Ao ouvir estas palavras, Meldon Aistana corou até a raiz dos cabelos. Não
era um assunto fácil de discutir, ainda mais com um banqueiro exigente
como este velho sovina.

A figura deste elfo não era nada imponente. Algumas desgatadas peças de
roupa serviam de forração para sua armadura, seu único bem, ao que
parecia. Ao menos esta estava sempre limpa e brilhante, uma tarefa a que
sempre se entregava com orgulho e dedicação. Duas pesadas maças pendiam de
suas costas, presas com uma tira de couro, ao passo que um enorme dente
azulado preso a um tipo de cabo feito de marfim pendia de seu cinturão,
parecendo um esquisito punhal. Os tecidos por baixo das placas e peças de
armadura apresentavam funestas manchas escuras. Sua aparência era
completada pelo grande elmo, parecendo uma cabeça de um enorme lagarto,
ou talvez um pequeno dragão. Dois olhos bem azuis brilhavam sobre os
dessarumados cachos de seus cabelos negros, que chegavam até quase
seus ombros.

Enquanto Meldon tirava vagarosamente as poucas moedas que tinha em sua
bolsa de dinheiro para fazer o depósito, altos gritos romperam o ar de
dignidade do salão do banco. Vozes alteradas discutiam; uma voz feminina
e musical, como o canto de pássaros sob o murmúrio de uma cachoeira, em
tudo dessemelhante a voz estridente daquela moça da entrada da cidade, e
uma outra voz, mais grossa e rouca, com um tom de medo ou talvez de raiva.

Abandonando sua magra carteira, Meldon saiu correndo para ver o que
acontecia. Talvez alguém estivesse em apuros, precisando de ajuda. Talvez
aquela voz tão musical estivesse precisando de seus préstimos. Quanta
esperança!

Seguindo os sons, ele chegou até um edifício de pedra. As vozes vinham de
um salão bem mobiliado, aonde um mercador parecia passar maus bocados com
uma elfa muito irritada.

- AONDE ESTÁ MEU THOR? - esbravejava a bela elfa.

- A-a-a-calme-se dona! Aonde está Q-Q-Q-QUEM? - dizia meio gaguejando o
    homem chamado Belesdan (pelo que dizia a plaquinha na mesa).

- VOCÊS PEGARAM MEU BEBÊ, MEU THOR. AONDE ESTÁ MEU BEBÊ? AONDE? EU VI
    VOCÊ PERTO DO MEU BEBEZINHO! - dizia a elfa, cada vez mais brava e
    gritando mais alto na orelha do mercador, já com ele suspenso pelos
    colarinhos.

- Ma-ma-mas eu não sei de nada! Eu juuuuuro! - dizia amedrontado o pobre
    homem.

- VOCÊ FICOU PERTO DELE E EU VI FAZER UM SINAL! VOCÊ SEQUESTROU ELE! -
    esbravejava a irritada elfa.

Esta elfa vestia uma armadura azulada, muito brilhante. Era um brilho
esquisito, no entanto. Sua armadura tinha um aspecto frio, como se fosse
feita de flocos de gelo acumulados por éons, e comprimidos até ficarem
mais duros e resistentes que o melhor aço élfico de Valfenda. Uma basta
cabeleireira castanha, bem clara, descia lindamente sobre seus ombros,
presos na testa por uma coroa de delicada feitura, mas que, no entanto,
tinha um brilho sombrio. Vestes de seda esvoaçante separavam seu corpo do
frio contato da armadura. Duas maças de tamanho descomunal estavam
encostadas ao canto, próximas a ela, e emanavam uma aura estranha, como
se já tivessem muitas almas negras exterminadas sob seu peso. A despeito
do exterior guerreiro, Meldon viu a mais linda criatura que jamais havia
posto os olhos em cima, uma dama élfica de apurada beleza como as
senhoras de Valfenda e Gondolin. Dois olhos verdes cintilavam naquele
rosto ao mesmo tempo delicado e guerreiro.

- Mas eu não fiz nada! - gritava o homem e gesticulava feito doido,
    suspenso pelo pescoço nas mãos da elfa.

Em um dos seus muitos movimentos para libertar-se, ele esbarrou em sua
escrivaninha, mandando todos os papéis e objetos ao chão. Em meio a
papelada, um pequeno objeto prateado cintilou no chão. Era um delicado
pingente em forma de coração. Veasse pegou o pingente e ficou ainda mais
furiosa, pois estava escrito "Thor" em delicados caracteres amarelados.

- O PINGENTE DO MEU THOR! MEU FILHINHO! AONDE ESTÁ ELE? - gritava a elfa
    agora totalmente fora de si.

- Sem querer interrompê-la, Senhora, acho que posso convencer esse safado
    a falar.

A isto, Meldon sacou de sua cintura seu punhal de dente de dragão, ao que
a elfa soltou o mercador com cara de ladino, e este veio ao chão com um
barulho seco "POF".

Suprimindo o riso e fazendo a mais terrível cara de malvado que
conseguiu, Meldon passou o punhal bem pertinho dos olhos de Belesdan,
dizendo com voz firme:

- Acho melhor você contar aonde está o filhinho desta dama, ou o dragão
    que me cedeu este dente vai sentir sangue humano mais uma vez. - e
    passou o punhal na bochecha direita de Belesdan, deixando um risco
    vermelho.

Com olhos esbugalhados, olhando ora para uma ora para outra daquelas duas
figuras com cara de malvados, ele disse por fim: NÃO SEI DE NADA! NÃO FIZ
NADA! SÃO ELES QUE SEQUESTRAM PESSOAS E ANIMAIS! - e continuou numa voz
chorosa: Eu só tinha que passar o pedido de resgate! Eles me obrigaram a
isso!

- Acho bom me dizer quem são "eles", ou ...

- Se eu disser, eles me matam!

- Se eu fosse você, olharia bem para a cara desta senhora e depois pra
    minha. Ainda acha que você deve se preocupar com "eles"?

Com um olhar totalmente aterrorizado como um camundongo fitando uma
serpente faminta, o pobre homem se encolheu todo e disse em prantos: Nos
esgotos! Nos esgotos! Eles se escondem lá! - e chorou copiosamente em
seus próprios joelhos

- Ah, parece que alguém só precisava do estímulo certo para abrir o bico,
    hein? Se não acharmos nada nos esgotos, voltaremos. E nem pense em
    fugir. Tenho muitos anos de prática em perseguir animais assustados. E
    garanto que a segunda visita será bem desagradável para você.

- Mas vai deixá-lo assim? Não vai dar nem uns tabefes nele? Ele sabia
    aonde estava meu bebê e não queria dizer! - e a elfa mirou um certeiro
    soco em Belesdan, bem à moda antiga: um direto no queixo.

Dando risada da reação da elfa, ele a conduziu pra fora do edifício. Ela
estava bastante agitada; nada mais natural, para alguém que perdeu o
filhinho e está procurando-o em meio a sequestradores.

- Nem pude me apresentar, bela Senhora. Sou Meldon, Meldon Aistana, a seu
    serviço e de sua família.

- Tá, tá, meu nome é Veasse, e Senhora é a sua mãe. Sou uma Senhorita. E
    vamos deixar de conversa e procurar logo meu bebezinho.

Dando um risinho escondido da reação de Veasse a ser chamada de Senhora,
Meldon foi buscar seu cavalo na entrada do banco. Logo voltou com seu
corcel malhado, com uma bonita sela de couro trabalhado.

- Por favor, minha Senhora... erm... Senhorita, monte meu cavalo Roch.
    Nossa caminhada pode ser longa, e não gostaria que se cansasse.

- Está me chamando de frágil? Pois fique sabendo, senhor cavaleiro, sou
    uma graduada guerreira da academia de Valfenda, discípula de Mestre
    Vladnov. Posso andar muitas e muitas léguas sem precisar desse cavalo.

Ao ver o olhar sentido no rosto de Meldon, a expressão de Veasse se
suavizou, e ela disse com sua voz melodiosa, agora num tom mais meigo:

- Desculpe, Senhor Aistana, não quis ofendê-lo. Aceito sim, sua oferta.
    Perdoe-me, mas meu bebezinho foi sequestrado e...

- Eu entendo, Senhora, ops, Senhorita. Não precisa se desculpar. E por
    favor, me chame apenas de Meldon. Meus amigos me chamam assim.

Dando risinhos enquanto montava o cavalo, Veasse disse com um largo
sorriso:

- Sou Veasse Elleth, mas pode me chamar de Veasse.

E lá se foram os dois procurando a entrada nos esgotos. Com sua
habilidade de rastrear adiquirida em seu longo treinamento Ranger, Meldon
logo descobriu em qual dos bueiros havias traços de passagem de pessoas.

Ao seguirem a trilha, chegaram até uma porta, escondida nas galerias
subterrâneas. Enquanto examinava a porta, Meldon foi atacado por um vulto
encapuzado, talvez o guardião daquela entrada. Pego à traição, Meldon não
pode reagir em tempo, e foi agarrado pelo assassino. Enquanto lutava pra
se desvencilhar de seu inimigo, ele ouviu um som como que de um vaso se
quebrando, e sentiu os braços de seu inimigo afrouxarem. Veasse havia
partido o crânio dele em pedaços com um golpe de suas descomunais maças.

- He he he, mais um! Eu sempre me divirto com esse som! - dizia Veasse.

Um tanto quanto assustado, mas ao mesmo tempo deslumbrado, Meldon olhava
para Veasse, se perguntando como poderia uma mulher ser daquele jeito.
Não que isso o desgostasse; mulherezinhas fragéis nunca o atraíram.

Após alguns minutos para se recompor, ele disse:

- Bom, precisamos agora achar um jeito de abrir essa porta. Deve haver
    uma chave no corpo deste assassin...

Enquanto Meldon ainda falava, Veasse deu um grito e, com um tremendo
chute, derrubou a porta.

- Chaves? HÁ! Vai ficar ai mexendo nesse presunto ou vai entrar?

Com um sorriso no canto dos lábios ele atravessou a porta, ou que sobrou
dela. Uma grande sala os esperava. A um canto, havia uma mesa de madeira
reforçada, com algumas correntes em cima. De uma mesa mais para o lado
das sombras, um homem surgiu, com um olhar maligno no rosto e uma grande
faca recurvada num ângulo, no mínimo, esquisito, para não dizer grotesco.

- Mais vítimas para mim? Meu mestre deve estar feliz comigo! Acho que vou
    começar por essa mulherzinha HAHAHAHA.

Pobre homem, ele não viu o estado da porta. Nem imagina o que o aguarda.

Mas antes que Veasse pudesse atingir aquele arrogante, Meldon se esgueirou
por trás dele, e com seu afiado punhal, enterrou-o nas costas dele, e foi
puxando ao redor dele, até passar pelo umbigo. Com um grito de dor, que
acabou em um longo gargarejo de sangue, o homem despencou no chão,
incapaz de sustentar o peso do próprio corpo.

Ao ver o olhar incrédulo no rosto de Veasse, Meldon disse com um sorriso
cruel:

- Sutileza, Veasse, sutileza. E um punhal mais afiado que a língua
    viperina de Morgoth!

- Mas que obra de arte! Gostei! Como se faz isso?

- Requer uma certa prática, desviar das costelas para ter um corte mais
    bonito e limpo. Tome, fique com este punhal. Tenho outro na mochila.

Enquanto Veasse fazia movimentos no ar, eviscerando um inimigo
imaginário, Meldon achou a porta que provavelmente conduziria mais para
dentro daquele antro.

- Achei a porta! E esta parece bem mais resistente. - disse ele ao ver os
    reforços de aço na porta.

- HÁ! Resistente! Pffff - e Veasse jogou todo o peso do corpo naquela
    porta, que mesmo rangendo um pouco, resistiu a seus esforços.

- Permita-me, Senhorita - disse o elfo com uma reverência. Tirou alguns
    delicados e finos instrumentos de uma bolsinha presa a cinta, e mexeu
    na fechadura daquela porta. Logo um Click ouviu-se, e Meldon empurrou
    mansamente a porta aberta.

- Bah! Aonde está a graça de abrir portas assim? Eu já estava preparando
    pra demolí-la com minhas maças!

- Sutileza, Veasse, sutileza. Não queremos que até os mortos escutem
    nossa chegada. Você quer seu bebezinho saudável, não quer? Precisamos
    ser sutis.

E lá se foram os dois por aqueles caminhos escuros. Algumas vezes,
toparam com vultos que vagavam na escuridão. Estes fugiam ao vê-los,
talvez para contar ao chefe que havia intrusos. Pobres diabos! As vezes,
ficavam com a cabeça esmigalhada, outras vezes, sem barriga, e ainda
outros tiveram a infelicidade de serem capturados vivos (temporariamente,
claro), e "gentilmente" cederam informações antes de serem postos
inconcientes por um bem aplicado soco do elfo ou da elfa. Eles se
revezavam, afinal, não era justo apenas um se divertir. Eles riam,
apostando qual deles causaria maior dor de cabeça no indivíduo quando
este acordasse.

Logo chegaram a uma galeria mais profunda, escura como breu. Um cheiro de
podre e de morte subia daquele poço. Mas nem por isso eles se abalaram.
Meldon estranhava Veasse estar se divertindo nesta caçada enquanto a vida
de seu bebê podia estar por um fio, mas nada disse. Ele realmente estava
apreciando a companhia daquela elfa, tão forte e calejada nos caminhos da
vida, e ao mesmo tempo, brilhando sob uma aura de delicadeza e docilidade
aos seus olhos apaixonados. "Não, não, não é hora de pensar em romance"
dizia ele para si mesmo; "A missão primeiro. A missão. Tenho que salvar
essa criança".

Numa curva do caminho, chegaram a uma sala bem iluminada. O cheiro de
podre e morte, no entanto, persistia. Ao vê-los, um homem fez alguns
gestos rápidos com as mãos e jatos de energia atingiram os dois,
jogando-os no chão. Meldon sacou seu punhal e atirou-o com toda a força
contra aquele inimigo, atingindo-o bem no pescoço. Levando as mãos a
garganta, o assassino caiu, incapaz de pronunciar suas palavras mágicas.
Após breves minutos de interrogatório (acompanhadas de algumas pancadas de
maça em locais estratégicos), o assassino apontou a direção a seguir, e
estirou-se no chão, aguardando a morte. Pelo menos agora, aqueles elfos
horríveis parariam de bater-lhe.

Na direção indicada, os dois encontraram um amplo quarto, muito bem
mobiliado e bem cuidado, com cortinas cobrindo todas as paredes. Num dos
nichos das cortinas, Veasse achou uma passagem. Um corredor escuro levou
até uma outra porta trancada.

Veasse olhou interrogativamente para Meldon. Este sorriu, e deu um
tremendo pontapé na porta, estourando o trinco e as dobradiças.

- E aquela história de "sutileza", como fica? - disse a guerreira com ar
    divertido.

- Bom, foi um chute bem sutil, não foi? - disse o elfo, rindo.

No pequeno cômodo, estavam três mulheres, vestidas de maneira provocante,
empunhando chicotes de aspecto sinistro. Assassinas, sem dúvida, ambos
pensaram. A luta não foi fácil. Meldon, impedido de usar seu truque com o
punhal, teve que recorrer a suas maças. Após um combate feroz, as
assassinas estavam mortas, com seus corpos dilacerados pelos golpes
poderosos de ambos.

Prosseguindo naquele labirinto de túneis, ambos chegaram a uma comprida
escada em espiral, que levava até bem fundo naquelas catacumbas. Os
passos nos degraus ecoavam soturnamente naquele poço apertado. Ao
chegarem no fim da escada, se depararam com uma ampla sala, embora
parcamente iluminada. De um dos cantos do aposento, sons estranhos
chegavam aos seus ouvidos, como se uma fera estivesse presa ali. Veasse
se agitou ao ouvir aqueles sons, embora para Meldon nada significassem.

Das sombras, surgiu um vulto correndo em sua direção, com uma longa capa
escura. Ao redor de seu corpo, corriam pequenas labaredas, como se fossem
raios. Pelo seu porte, aquele poderia bem ser o rei ou líder daquele
lugar horrível. Com movimentos extremamente ágeis, o mestre-assassino
tentou apunhalar Meldon, imprudentemente subestimando a guerreira.

Com um leve movimento de corpo, o elfo evitou o punhal do assassino, mas
não pode fazer mais do que se desviar de seus ataques. Mesmo os golpes de
Veasse se perdiam no vazio, dada a tremenda agilidade do inimigo.

O combate ia se prolongando, e nenhum dos dois conseguia acertar um golpe
decisivo naquele inimigo tão veloz. Apenas acertavam o ar, e
ocasionalmente, quando se aproximavam dele demais, as labaredas que o
cervavam atingiam seus atacantes, provocando queimaduras.

Num determinado momento, Veasse fingiu escorregar. Imaginando que iria
cortar uma garganta com facilidade, o mestre-assassino foi pra cima dela.
No entanto, não percebeu que tudo era um estratagema, e que Veasse
mantinha sua maça numa posição especial. Assim que o assassino estava
próximo o suficiente, Veasse girou a maça, e esta atingiu por trás o
assassino, deixando atordoado, sem compreender bem de onde havia vindo o
golpe.

Aproveitando estes momentos de confusão da parte dele, ambos
descarregaram seus melhores golpes, e o pobre assassino foi assassinado.

Assim que viu o corpo tombado, Veasse correu para o lugar de onde partiam
os sons estranhos. Abrindo a porta de uma jaula, ela se deparou com 2
homens agilhoando um tigre branco, que estava preso com grossas correntes
na parede. Ao vê-la, o tigre rugiu num tom bem alto, mas ao mesmo tempo,
carinhoso. Os guardas olharam assustados para ela, e gritaram
"MEEESTREEEE!"

- Seu mestre não está mais neste mundo. Soltem meu bebê AGORA.

Meldon olhava com olhar de surpresa para todo o aposento, mas falhava em
ver a esperada criança. Nem mesmo o mais cruel assassino colocaria um
indefeso bebê numa jaula junto com um tigre.

- Veasse, vamos procurar seu bebê! - disse Meldon num tom apressado.

- Ué, ESSE é o meu bebê! Meu Thor! - disse a guerreira apontando para o
    tigre, que dava ronronados de satisfação.

Os guardas estavam paralisados com a cena. Dois intrusos e alguém que
conseguia controlar um tigre ferocíssimo como aquele.

Meldon olhava com cara de bobo pro tigre e depois para Veasse, novamente
para o tigre, e de novo pra Veasse.

- ESSE é o bebê? ESSE É O BEBÊ? E eu morrendo de preocupação imaginando
    uma criancinha! Eu deveria estar preocupado é com esses sequestradores
    amadores!

- Não fala assim do meu Thor! Ele pode ficar magoado com você!

Com dois rápidos golpes nas correntes, o tigre estava livre, e veio se
aninhar junto a Veasse. Após fazer alguns carinhos nele, ela se dirigiu
até os guardas atônitos com aquela mulher que tinha um tigre feroz como
bichinho!

- Vocês estavam maltratando meu bebê! - disse ela num tom baixo e solene.

Ambos os guardas tremiam e suavam frio, como se houvessem ouvido sua
sentença de morte.

- THOR! O da esquerda é seu! O outro deixa comigo.

Com um ágil pulo, o guarda da esquerda caiu ao chão, já com o peito
estraçalhado pelas garras daquele tigre, enquanto o da direita corria
para a porta, tentando fugir daquele bando de loucos. Oculto nas sombras
da porta, Meldon apenas estendeu seu punhal quando o guarda passava
correndo. Este esbarrou violentamente no punhal, deu alguns cambaleios e
voltas em torno de si mesmo, e caiu ao chão com o ventre rasgado.

- Este se matou sozinho - tentou gracejar o elfo, sem muito sucesso.

- Obrigada por me ajudar a salvar meu bebê! Você foi um amor!

Quando Veasse se preparava para dar um beijo de agradecimento na bochecha
de Meldon, Thor, num longo salto, caiu em cheio sobre o elfo.

- THOR! NÃO! ELE NÃO! - esbravejou Veasse.

Depois de se certificar que o Meldon estava apenas assustado com aquele
tigre ciumento e temperamental, Veasse o ajudou a levantar.

- Esse seu... erm... bebê... é bem... erm... bonito. - disse ainda meio
    assustado o elfo.
    
Neste momento, ele reparou no braço de Veasse, aonde havia um longo
ferimento, que ia desde o meio do antebraço até quase o ombro, numa longa
linha ensanguentada.

- Você está ferida! Por todos os Valar, você está machucada! - exclamou
    o elfo, em profunda agitação.
    
- Não é nada, apenas um arranhão! - tentando tranquilizá-lo.

- Você está ferida! Deixe-me ver isso! - e se abaixou para olhar o
    ferimento.

O tigre soltou um sinistro rosnado de advertência, deixando os cabelos de
Meldon em pé.

Rindo, a elfa disse: THOR! Ele não né? Seu gatinho manhoso e ciumento!
Ele é amigo, não rosna mais.

- Um gatinho bem manhoso né? O infeliz sem tórax ali na sala que o diga!
    - gracejou o elfo.

Fechando os olhos numa profunda concentração, Meldon colocou as mãos
espalmadas sobre o braço de Veasse, e murmurou algumas palavras
incompreensíveis. Uma esquisita luminosidade brilhou no espaço entre as
mãos dele e o braço dela, enquanto o longo corte ia se fechando de alto a
baixo.

- Mas o quê...Hein? ? - disse Veasse boquiaberta, sem crer no que via.

Talvez ela esperasse apenas uma bandagem feita com pedaços de pano.
Certamente não esperava aquela cura tão milagrosa. Thor começou a emitir
uns ronronados esquisitos, provavelmente por ser mais sensível ao fluxo
das energias mágicas presentes ali.

Ao abrir os olhos e ver o olhar assustado de Veasse, ele perguntou:

- O que foi? Doeu? Esse método de cura era pra ser indolor...

Mal articulando um "não", Veasse apenas olhava o braço, agora tão bom
e sadio como sempre. Após alguns minutos que Veasse levou para se
recompor, ambos se olharam longamente, cercados pelos cadáveres daqueles
asssassinos.

Meldon tremia mais do que jamais havia tremido em todos os combates de
sua vida juntos, e Veasse estava enrubescida, mais vermelha que um dragão
de fogo.

- Bom, Veasse... é... tem uma coisa que eu... bem, eu... é... eu queria
    dizer que... bom, o Thor... erm... (Nossa, como você é maravilhosa!) Eu
    gostaria de... de... de... - gaguejava Meldon numa tentativa frustrada
    de dizer algo...

- Você gostaria de passar mais tempo comigo, é isso? - tentou completar
    Veasse, com um sorriso nos lábios.

- EXATO! Era isso que eu estava tentando dizer. Gostaria de passar mais
    tempo junto com você. Não é fácil achar uma pessoa tão especial, tão
    forte, tão bonit... erm... - Agora, Meldon estava REALMENTE vermelho,
    tremendo como num acesso de febre.

Quem parecia não estar muito contente com a cena era o "gatinho manhoso",
que olhava desconfiado para o elfo e enciumado para Veasse. Ele parecia
querer dizer "Essa elfa é minha!". Tigres podem ser extremamente
ciumentos!

De volta a Bri, ambos estavam conversando na taverna, falando mas não
dizendo muita coisa, apenas para ouvir a voz um do outro. Num dado
momento, Meldon pegou um objeto redondo de sua mochila, e ofereceu-o a
Veasse. Era um enorme olho raiado de sangue, com pupilas finas como as de
uma cobra.

- Quero que você fique com isto, como um presente. É um olho de
    Basilisko, muito difícil de conseguir, e bem raro. Ele tem poderes
    mágicos, e pode curá-la de ferimentos bem graves. Basta balançá-lo
    próximo ao ferimento e entoar essas palavras mágicas que estão aqui
    neste pergaminho...

- Agradeço seu presente, Meldon, mas acho que não vou precisar usá-lo
    nunca. Afinal, você vai estar sempre por perto, não vai? - disse
    Veasse, corada ao extremo e com um sorriso maroto no rosto.

- Não me afastaria por nada nesse ou em outro mundo! - exclamou Meldon,
    com um longo suspiro de satisfação.

Muitas aventuras os dois correram juntos, e muitas baladas e odes
declamam seus feitos. E vejam só, até que o tigre perdeu o ciúme contra
Meldon depois de algumas aventuras. Mas isso fica pra outra história.

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